História da PAF

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Em 1939, o Dr. Mário Corino da Costa Andrade, nascido em Moura, Portugal, a 10 de junho de 1906, segue para o Porto à procura de emprego. Lá, oferece seus préstimos clínicos (como voluntário) ao Hospital Geral de Santo Antônio, que iniciava um pioneiro serviço de neurologia em condições bem precárias. 
 
É esse setor do hospital que pouco tempo depois acolhe uma mulher de 37 anos, residente na Póvoa de Varzim, que se queixava de adormecimento, formigamento e falta de sensibilidade térmica e dolorosa nos membros inferiores, dificuldade de andar, diarreias e perturbações nos membros superiores.
 
Dizia que essas suas queixas eram semelhantes a de outros familiares seus e de alguns vizinhos. No vilarejo, o povo denominava o complexo de sintomas de "Doença dos Pezinhos", já que a moléstia atingia os pés e em pouco tempo impedia o doente de caminhar.
 
O Dr. Corino logo descartou os diagnósticos apontados até então (lepra nervosa e avitaminose) e desconfiou estar diante de uma síndrome neurológica ainda não descrita. Aos 33 anos, ele inicia uma análise pormenorizada de todos os casos parecidos e o faz com tal perícia que a patologia logo recebe o nome de Doença de Andrade.
 
Mas o Dr. Corino de Andrade tinha a grandeza de assumir que “sábios são aqueles que procuram”, e até o instante do reconhecimento e divulgação mundial da doença, em 1952, deu diversos passos procurando catalogar a ordem e a desordem de uma doença ainda por classificar, ou mal classificada.
 
Em setembro de 1952, finalmente e pela primeira vez, vem a ser editado na íntegra seu célebre artigo A Peculiar Form of Peripheral Neuropathy (Brain, vol.75: 3, 408), que lança definitivamente o Dr. Corino de Andrade ao topo dos neurocientistas mundiais. 
 
O artigo científico veio a lançar as bases de uma frutífera investigação sobre a doença daqueles que tinham os nervos  severamente danificados e cobertos por depósitos de uma sustância amiloide de origem desconhecida.
 
Décadas depois, em 1975, o Dr.. Corino tornou-se o cofundador e primeiro diretor do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto e, em 1989, criou o Centro de Estudos de Paramiloidose (CEP), para que a clínica e a investigação coexistissem lado a lado.
 
Reunindo em torno da PAF uma série de neurologistas, bioquímicos, matemáticos e geneticistas (muitos dos quais investigadores da Universidade do Porto), o CEP foi se tornando uma referência mundial na área.

Em 1978 Pedro Pinho Costa descobre que as fibrilas de proteína amiloide são formadas pela pré-albumina mais tarde denominada como transtirretina (TTR) Em 1984, a Dra. Maria João Saraiva descobriu que a substituição da Metionina pela Valina na posição 30 da proteína transtirretina (TTR) a Val30Met ou V30M, era a causadora dessa doença. Por ser causada pela proteína transtirretina, é chamada também Amiloidose Relacionada a Transtirretina ou simplesmente Amiloidose por TTR
 
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O conhecimento desta nova entidade clínica – Polineuropatia Amiloidótica Familiar (PAF) – levou a que outros focos da doença começassem a ser identificados em outros países, nos anos 60 sendo encontrada na Suécia e no Japão.
 
Estudos sugerem que a PAF do tipo Português (Val30Met) iniciou-se com o primeiro indivíduo durante a Baixa Idade Média (no século XV), e espalhou-se mundialmente devido ao crescimento e o deslocamento dessas populações.
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Um dos maiores escritores portugueses, Eça de Queiroz, nascido em Póvoa de Varzim (1845-1900), lutou durante 16 anos com uma “tuberculose intestinal” iniciada quando completou 39 anos. Até morrer, aos 55 anos, queixou-se fortemente de dor de estômago, cansaço nos pés e “sentimento de inércia”. Estes sintomas levaram seus biógrafos mais recentes a indicar como causa real de sua morte não a tuberculose intestinal, mas a PAF.
 
Atualmente, o número de portadores da PAF no mundo é estimado em 10 mil. Os maiores focos estão no norte de Portugal (Póvoa do Varzim e Vila do Conde) onde a sua prevalência chega a 1/1,100, além de Suécia, Japão e Brasil. Na União Europeia estima-se uma prevalência de1/100,000. Não há dados epidemiológicos no Brasil, mas estimasse uma prevalência de pelo menos 1/100,000 ou superior e segundo país com maior número de doentes, atrás de Portugal.
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